Modelo 1976

Em um livro mirabolante do Mario Sérgio Cortella chamado Não Nascemos Prontos, que fala sobre o fato de irmos nos fazendo: “…gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta, e vai se fazendo…” achei essa idéia incrível, passei a refletir não sobre o que estou fazendo, mas como estou fazendo!

Concluí que realmente e filosoficamente, atualmente sou um ser mais novo a cada instante, vou me fazendo, com idéias novas, pensamentos novos, revivo a cada instante.

Naturalmente, a cada vez que revivo, uma ruga aparece em mim. As idéias e os pensamentos novos trazem cabelos brancos e a gravidade fica mais forte a cada ano que passa.

O grande dilema de ficar filosoficamente mais novo ou naturalmente mais velho está no fato de que o corpo não acompanha a mente, ou seja, enquanto o corpo fica velho, fraco e cansado, a mente se renova e se refaz, com isso deduzo que sou um sujeito ano 2007 modelo 1976 e concorro com outros sujeitos 2007, mas modelos variados e até bem mais novos, e isso pode ser um problema.

Para essa luta filosófica e naturalmente desigual, uso as armas que tenho. Posso dar um jeito nessa gravidade chata indo malhar e fazendo dietas. Já as rugas podem ser mais chatas de serem resolvidas, e pra isso existe o famoso Botox. Se ainda assim a coisa não funcionar, ponho um par de óculos escuros e estou pronto para a luta, quer seja ela por parceiros ou parceiras quer seja ela por empregos.

As pessoas normalmente usam as justificativas: “…quero envelhecer bonito, sem rugas…”, “…não tenho cabelos brancos, pinto todos para ficar bonito…”. Ora, desde quando é feio ter rugas? Qual o problema dos cabelos brancos? O problema existe nas pessoas que estão mentalmente velhas, aquelas que, por exemplo, têm 30 anos e não mudam desde os 15, continuam com as mesmas idéias, sonhos, experiências e desejos.

Você não acredita? Acha exagero meu? Vá numa festa, olhe bem o comportamento dos “adultos”, veja que eles rebolam com o Tchan, quando soltam um pancadão então…, azaram as menininhas e os menininhos mais novos e quando toca Xuxa é uma festa.

E os “jovens”? Geralmente não ficam atrás nessa competição, usam as suas armas, fazem cara de conteúdo, idolatram ídolos do passado, compram livros e decoram partes de poemas, usam jargões, às vezes até os meus jargões: “No meu tempo não era assim”, esquecem as bonecas e os carrinhos cada vez mais cedo e, cada vez mais cedo ainda começam a namorar.

Não sei bem, mas acho que essa competição não faz bem a nenhum dos dois, e será que não estamos buscando o falso? O falso seio de silicone, o falso ídolo! E porque fazemos isso? Para competir? Por medo de ficarmos “velhos” e não sermos aceitos na sociedade? Medo de ficar velho se o meu mais novo “eu” é agora? Chego a conclusão que o mais velho de mim (se a medida é o tempo) está no meu passado e não no meu presente.

Talvez, quando eu for mais novo, consiga entender o porque dessa competição e conte para meus netos, filhos, etc. Por enquanto decidi que quero ser aparentemente velho, não vou lutar contra os efeitos do tempo, não vou mentir para o meu espelho e, se tudo ocorrer direitinho, prometo que nem Viagra eu tomo.

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